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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O ESPÍRITO SANTO DE UM CARNAVAL DIFERENTE

Esta semana de Carnaval, para muitos foi de diversão, para outros, foi de descanso, mas para quem participou de retiros, principalmente o da Comunidade Católica Shalom no Colégio Sagrado Coração de Maria a experiência valeu por toda uma vida. De Sábado (18) a Terça (21) jovens, adultos, idosos e até mesmo afastados da Igreja puderam vivenciar um momento de êxtase da experiência de Deus. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Lc 8, 8). Quando fui convidado pelo Allan Phablo, ainda hesitei somente em via de fazer laboratório com a experiência. Porém quando o segundo convite chegou, a partir de um segundo servo da comunidade, Pedro Silvestre, o interesse aumentou. O jantar-show reuniu jovens ao redor de um palco e visitantes ao redor de um altar para a missa de abertura, presidida por Dom Mariano Manzana. Não tive a oportunidade de comparecer ao Sábado de Abertura, nem da manhã de Domingo, por compromissos acertados de última hora. Ao domingo à tarde, ingressei no Seminário de Vida no Espírito Santo achando que seria somente uma palestra. Acabei virando fã do pregador Jorge, servo da comunidade que prontamente deu palavras de sabedoria e de ensinamentos, dizia ele, só é Católico de Verdade quem evangeliza e parte para a missão e não quem simplesmente vai a uma missa ou outra. Pouco a pouco fui conhecendo a estrutura do evento no dia seguinte, que contava também com espaço para confissões individuais, aconselhamento e oração e com a Capela do colégio aberta para orações particulares. Além de ter uma estrutura montada inteiramente para cursos de jovens, casais e vocacionais para quem participa pela segunda vez em diante do evento. Quantos não já passaram pela experiência da Adoração ao Santíssimo, tão comum no Santuário do Coração de Jesus no Centro ou no dia de Corpus Christi, onde ele percorre a cidade nas mãos do Bispo? Pois saiba que esta adoração no evento é um convite á Obra Nova que Deus quer realizar e realiza. Com servos o tempo todo se revezando para impor orações sobre você e sobre outros irmãos, às vezes sinalizados, a oração do Espírito Santo (em línguas) se resume numa experiência que pode tanto lhe emocionar quanto tocar seu coração. Na manhã da Segunda, participei da adoração do meu cantinho e vieram dois servos orarem por mim. As frases penetraram em meu consciente como se fosse exatamente o que eu gostaria de ouvir. Foi uma experiência, à princípio tocante, mas ao final surpreendente que eu passei, mas o principal ainda estava por vir. Também me sinto muito grato à moça grávida que se sentou ao meu lado na segunda pela manhã que me convidou ao Grupo de Oração da Paróquia de São João Batista no bairro Doze Anos, quando entrar de férias da faculdade farei uma visita. À tarde eu percebi que Deus estava preparando um jeito de me dizer o caminho. Eu consegui pegar naquela tarde a palestra ministrada por Tiago Duarte da metade para o fim, pois um imprevisto me fez atrasar-me. Logo que cheguei, ele pediu para levantarmos as mãos e orarmos, nisto se aproximou mais uma serva e orou em línguas, revelando logo após a frase que eu estava querendo ouvir naquele momento. Também comecei a olhar a tarde de uma maneira diferente. Logo após, uma pregação com um Às 17h00 como nos outros dias, à hora da Adoração, o pregador pediu para nos aproximarmos da mesa onde estava exposto o Santíssimo. Logo que eu comecei a me aproximar, começaram os servos a orarem em outros irmãos convenientemente espalhados em redor da mesa abaixo do palco. Quando fechei os olhos, quatro servos, um atrás do outro começaram a se aproximar de mim e cada um rezando, dizia uma frase que me fazia estremecer nas bases e a cada vez mais gritar interiormente. Quando a quinta serva se aproximou, ela disse nos meus ouvidos a última farpa que ainda estava em meu coração, um vício antigo e que há mais de dez anos me torturava, razão pela qual eu já estava passando há 5 anos sem comungar. Isto foi uma experiência inédita, pois pela primeira vez, não fui eu que procurei o aconselhamento, e sim ele que me procurou, no meu lugar eu teria fugido desta conversa, e não nego que estava com receio de contar intimidades, mas eu queria pelo menos me abrir. No dia seguinte, a Terça Feira, após a primeira palestra da manhã, fui procurar a Rosineide (inclusive agradecendo a ela e ao irmão que eu me esqueci o nome (é normal)) pela oração. Chegando lá, conversamos e depois de alguns minutos, a oração começou e então um crucifixo foi posto em minha mão e eu me emocionei quando ela disse que a visão que ela tinha nas orações era de Nossa Senhora das Graças, em cima do globo e rodeada pelo aro de ferro assim como nas aparições a Santa Catarina Labouré em 1830. Isso mexeu muito comigo, pois eu acredito nas promessas feitas pelo Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Alacoque e acredito nos Amigos/Videntes de Nossa Senhora de Medjugore (também conhecida como Nossa Senhora Rainha da Paz), porém nunca havia testemunhado que ela estivesse pela primeira vez se revelando (além de toda a minha vida, pois desde os 14 anos sou devoto de Nossa Senhora de Guadalupe. Depois disso, andei para a quadra onde foi feita a efusão marcando o terceiro dia de Renascer. Entrei na fila para receber orações, tendo recebido um empurrãozinho abençoado da Rosineide. Quando começaram a orar por mim, pedi ao Senhor um sinal particular mas ao mesmo tempo público de que sua graça estava ali. Tentei me ajoelhar, mas minhas pernas ficaram duras e eu me estirei no chão. Aquele foi o momento mais indescritível da minha vida. Assim como também uma menina que subiu ao palco momentos depois também caiu ao chão e ficou contemplando quieta. Pela tarde, foi montado espécies de minicenáculos onde nós partilhamos alguns conhecimentos e bênçãos alcançadas e agradeço muito à Márcia que nos mostrou que sua família é regida por aquele em quem acreditamos e buscamos. Logo após, foi a vez dos comentários finais e testemunhos. Aquela menina imóvel no palco deitada, disse a frase que todos nós gostaríamos de ter dito, “Deus é o Cara!”. Todo jovem deveria realizar esta experiência. Também me senti honrado em receber o convite, mesmo que inconsciente de duas consagradas de oração do Apostolado do Sagrado Coração de Jesus da Paróquia do Alto de São Manoel, hoje, eu acho que vou procurar um apostolado também, além de ser minha devoção primária, e depois dele o Divino Espírito Santo, o apostolado me chamou atenção. Tirei também minha dúvidas em favor de minha vontade até a alguns meses de entrar para o Sacerdócio, porém Deus enviou um recado através de Rosineide, “que eu não usasse o sacerdócio como rota de fuga da minha solidão ou da minha timidez, pois eu iria cada vez mais precisar de coragem para tal.” Enfim, resumindo, uma bênção maior que esta, só acontecendo de novo mais três dias de retiro, pois a rotina nos toma muito dessa fé que nos falta. A todos os irmãos servos da Comunidade Shalom o meu abraço e aos irmãos Allan Phablo e Pedro Silvestre e ao Alan Rodrigues, que eu conheci por lá juntamente com outros já amigos, um débito que eu sei que nunca vou conseguir pagar, inclusive convidei o Allan para me acompanhar no próximo sacramento que irei receber, o da Crisma, tornando-se assim meu padrinho. Já me convidaram para grupos internos do próprio Shalom, mas eu pelo calma, ainda é muito cedo para optar por uma radicalidade de minha parte por este caminho, embora eu já esteja na beira dessa estrada. Com calma, eu sei que Deus escutará as preces do mundo e aí, nó veremos os frutos dessa experiência chamada Renascer. Deus abençoe a todos e até um próximo artigo, se Deus quiser.

Pedro Augusto de Queiroz
Bacharelando do 4° Período de Ciências Sociais

domingo, 1 de janeiro de 2012

MENSAGEM DE BENTO XVI PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ 2012

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
BENTO XVIPARA A CELEBRAÇÃO DO
XLV DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2012

EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E A PAZ
1. O INÍCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fique marcado concretamente pela justiça e a paz.
Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor « mais do que a sentinela pela aurora » (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.
Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: « Educar os jovens para a justiça e a paz », convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.
A minha Mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, económica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade.
Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos.
As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora actual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário.
É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas  as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver « coisas novas » (Is 42, 9; 48, 6).
Os responsáveis da educação
2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latinaeducere – significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe.
E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. « É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro ».[1] Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz.
Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas.
Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos.
Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar activamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna.
Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito-dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Actuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idóneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência. Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos.
Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribuição educativa. Na sociedade actual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de facto, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa.
Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.
Educar para a verdade e a liberdade
3. Santo Agostinho perguntava-se: « Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade? ».[2] O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De facto, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence. Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: « Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem? O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o facto de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa. Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que « o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões »,[3] incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele económico ou social, individual ou colectivo.
Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele.
A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. « Hoje um obstáculo particularmente insidioso à acção educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».[4]
Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado.[5] Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.
Assim o recto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.
Educar para a justiça
4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De facto, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor.[6]
Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios económicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo ».[7]
« Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados » (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.
Educar para a paz
5. « A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade ».[8] A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor.
A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos. « Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9).
A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.
Levantar os olhos para Deus
6. Perante o árduo desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: « Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1).
A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: « Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor? ».[9] O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).
Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação.
Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo.
Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz.
Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas refl exões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de « educar os jovens para a justiça e a paz ».
Vaticano, 8 de Dezembro de 2011.

BENEDICTUS PP XVI


Notas
[1] Bento XVI, Discurso aos administradores da Região do Lácio, do Município e da Província de Roma (14 de Janeiro de 2011): L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/I/2011), 5.
[2] Comentário ao Evangelho de S. João, 26, 5.
[3] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 11: AAS 101 (2009), 648; cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264.
[4] Bento XVI, Discurso por ocasião da abertura do Congresso eclesial diocesano na Basílica de São João de Latrão (6 de Junho de 2005): AAS 97 (2005), 816.
[5] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 16.
[6] Cf. Bento XVI, Discurso no Parlamento federal alemão (Berlim, 22 de Setembro de 2011):L’Osservatore Romano (ed. port. de 24/IX/2011), 4-5.
[7] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 6: AAS 101 (2009), 644-645.
[8] Catecismo da Igreja Católica, 2304.
[9] Bento XVI, Homilia durante a vigília com os jovens (Colónia, 20 de Agosto de 2005): AAS97 (2005), 885-886.


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Fonte: Extraída diretamente do site do VATICANO.